Impeachment de presidente pode sair caro ao país

24/06/2012 20:19

Buenos Aires O primeiro impeachment da História do Paraguai jogou o país na incerteza - e pode custar caro. Equilibrando-se entre disputas políticas internas e a pressão e a desconfiança externas, o novo governo terá que resolver os mesmos problemas que, pela forma como foram enfrentados, custaram a Fernando Lugo a Presidência.

Especialistas são unânimes em afirmar que o julgamento político, pela forma abrupta com que ocorreu, terá seu preço. E provavelmente alto - mesmo que ainda não seja possível determinar suas implicações.

Determinado a desfazer o mal-estar causado pela destituição do então presidente Fernando Lugo, Franco pretende procurar nos próximos dias a presidente Dilma Rousseff e o líder uruguaio, José Pepe Mujica FOTO: REUTERS


O Paraguai está a apenas nove meses de eleições gerais. Lugo só foi destituído porque o Partido Liberal, o mesmo que o ajudou a chegar ao poder em 2008, aliou-se ao antigo rival Partido Colorado, os políticos mais tradicionais do país, ligados a ditaduras e a escândalos de corrupção. Sem margem de manobra para adotar qualquer medida que possa provocar novas tensões políticas e sociais, o novo presidente Federico Franco já começa enfraquecido por um panorama incerto dentro do Paraguai e pela ameaça de isolamento dos tradicionais parceiros regionais.

Político conservador e de tendência direitista, Franco terá que ter habilidade para convencer os vizinhos esquerdistas sobre sua legitimidade como presidente. Sem as trocas com Brasil, Argentina e Uruguai, o país poderia entrar numa crise econômica sem precedentes. Os desafios do novo presidente poderão ser ainda mais complicados que os de Fernando Lugo.

"Franco terá muitos problemas e pouco apoio. A jogada política dos opositores de Lugo foi arriscada e ainda não está claro qual será, realmente, o custo para o Paraguai", sintetiza Andrés Colman, jornalista do diário paraguaio "Última Hora".

Para o pesquisador do Centro de Investigação Política da Universidade Nacional de Assunção, Horacio Perrone, o novo presidente paraguaio enfrentará tensões internas e externas. Dentro do país, terá de encarar os mesmos problemas que Lugo não conseguiu resolver, entre eles as invasões de terras, as ações de guerrilhas locais e a crescente insegurança nas principais cidades do Paraguai.

No cenário externo, Franco terá de convencer seus vizinhos na região e outros governos estrangeiros de que o impeachment de Lugo foi um processo legal, que respeitou todas as normas previstas em nossa Constituição.

"O presidente sabe que não será fácil e está ciente, também, de que a maioria de nossos parceiros no Mercosul e na União das Nações Sul-Americanas (Unasul) não esteve de acordo com o julgamento político de Lugo. Esperamos que ele seja um presidente prudente", avalia.

Segundo o especialista, por ser um político conservador e de tendência direitista, Franco não deverá ter uma boa relação com os grupos de esquerda e tentará buscar apoio nos mais tradicionais, principalmente no Partido Colorado.

Busca por reconhecimento

Após assumir a Presidência, Federico Franco disse que vai se esforçar para conquistar o reconhecimento dos países vizinhos. "Estou consciente que estou assumindo numa condição desfavorável, mas vou fazer todo o esforço para que o governo seja reconhecido pelas nações como o que é: um país democrático", disse Franco.

O novo presidente disse se preocupar com o fato de nenhum país ter declarado reconhecê-lo como presidente após o julgamento político que depôs Lugo em apenas dois dias, mas reforçou que assumiu o cargo num processo legal e respeitando a Constituição do país.

"Meu país se orienta por regras muito claras, aqui não há nada de golpe, se fez um julgamento político, o Congresso por uma maioria praticamente unânime aprovou. O presidente teve apenas um voto no Câmara e quatro no Senado. O povo paraguaio está satisfeito com essa decisão", afirmou.

Franco também disse ainda estar tranquilo quanto a uma possibilidade de sanção ou expulsão do Paraguai por parte de organismos regionais com a Unasul ou o Mercosul. Ele deve procurar a presidente Dilma Rousseff e o líder do Uruguai, José Pepe Mujica para conversar.

Líderes latino-americanos criticam deposição de Lugo

Lima A destituição do presidente Fernando Lugo no Paraguai, após um processo com menos de 48 horas de duração, mereceu uma nova bateria de críticas dos líderes latino-americanos e de países como Espanha e Estados Unidos.

Entre os países latino-americanos, foi quase impossível encontrar manifestações de apoio à "troca" de presidentes no país vizinho. Ontem, o governo do México considerou que o processo de destituição de Lugo não foi justo por não ter lhe concedido espaço para a defesa.


Entre os países latino-americanos, foi quase impossível encontrar manifestações de apoio à "troca" de presidentes no país vizinho FOTO: REUTERS


"Embora o processo de julgamento político tenha se desenrolado seguindo o procedimento estabelecido no texto constitucional paraguaio, o México considera que este procedimento não concedeu ao ex-presidente Lugo os espaços e tempos para a devida defesa", expressou a chancelaria mexicana em comunicado oficial divulgado ontem.

À semelhança de outras nações do subcontinente, a Costa Rica disse que o processo tinha "aparências de golpe de Estado", enquanto o Peru qualificou o julgamento político de "golpe contra a democracia".

O presidente peruano Ollanta Humalla não descartou a adoção de medidas no âmbito da Unasul, numa sinalização semelhante a de sua colega brasileira Dilma Rousseff.

Já o governo de El Salvador afirmou que a destituição de Lugo "torna vulnerável a ordem democrática", enquanto o chanceler chileno, Alfredo Moreno, ressaltou que o processo não cumpriu com os padrões mínimos do devido processo que merece qualquer pessoa.

Em Madri, o Executivo espanhol defendeu o "pleno respeito à institucionalidade democrática" no país e declarou que mantém contato com os integrantes da Unasul e da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre a crise política.

Estados Unidos

Os Estados Unidos convocaram os paraguaios à calma e a agir com responsabilidade. "Convocamos todos os paraguaios a agir pacificamente, com calma e responsabilidade, no espírito dos princípios democráticos paraguaios", afirmou uma porta-voz do Departamento de Estado, Darla Jordan.