Líbia celebra aniversário da revolução em meio a preocupações com o governo

19/02/2012 11:29

BENGHAZI, Líbia, 17 Fev 2012 (AFP) - Os líbios celebraram nesta sexta-feira, 17, o primeiro aniversário da revolta contra Muamar Kadhafi com fogos de artifício e lemas, enquanto seu novo líder prometia agir firmemente contra a atual instabilidade.

Centenas de pessoas se reuniram na Praça Tahrir, em Benghazi, cidade onde foram registrados os primeiros movimentos contra Kadhafi e seu regime de 42 anos. Após as tradicionais orações muçulmanas, os fiéis agitaram a nova bandeira líbia e proclamaram o "aniversário" da revolução.

Governantes líbios não organizaram comemorações oficiais em nível nacional, como sinal de respeito pelos milhares de mortos no conflito que culimnou com a captura e morte de Kadhafi em 20 de outubro.

No entanto, comemorações espontâneas eclodiram em todo o país, enquanto ex-rebeldes, que derrubaram Kadhafi no ano passado com o apoio da Otan, montaram pontos em Trípoli, Benghazi, na cidade portuária ocidental de Misrata, além de outros municípios.

Na Praça Tahrir, mães seguravam fotos de seus filhos mortos nos embates, enquanto cantores e poetas realizavam performances para as crescentes multidões.

"Esse é o primeiro aniversário da Líbia. É um dia de libertação, um dia para ser lembrado. Os próximos dias serão melhores agora que Kadhafi se foi", disse Malek L Sahad, um cantor de rap líbio-americano que retornou ao seu país de origem no ano passado.

Cerca de 200 pessoas agitaram as bandeiras e repetiram lemas contra o presidente sírio Bashar al-Assad, como "Que vergonha, Bashar!" e "Agora é a sua vez de sair!".

A reação impiedosa do regime de Assad em protestos similares que eclodiram em março do ano passado contra o governo já custou mais de seis mil vidas, disseram grupos defensores dos direitos humanos.

A Líbia pós-Kadhafi reconhece o Conselho Nacional Sírio, o maior grupo opositor, como representante do povo sírio.

O ex-coronel do Exército, Idris Rashid, de 50 anos, afirmou que a diferença entre a nova e a antiga Líbia é "como a diferença entre o céu e a terra".

"Estávamos vivendo antes, mas não sabíamos o real sentido de viver. Hoje, podemos sentir a brisa da liberdade", disse à AFP.

O líder líbio, Mustapha Abdel Jalil, deve participar de um evento em Benghazi na próxima sexta-feira para marcar o aniversário da revolução, assim como o primeiro-ministro interino Abdel Rahim al-Kib e outros dignitários.

Os thowars ("revolucionários" em árabe) se espalharam pela cidade para assegurar que as celebrações fossem pacíficas, e Abdel Jalil advertiu na quinta-feira que o espírito revolucionário da Líbia e sua estabilidade não seriam comprometidos.

"Nós abrimos nossos braços para todos os líbios, apoiem a revolução ou não. Mas ser tolerante não significa que somos incapazes de lidar com a estabilidade do nosso país", afirmou em uma emissora de televisão.
"Seremos duros com quem ameaçar nossa estabilidade".

A moradora de Trípoli Naima Misrati disse que guardas de trânsito e ex-rebeldes estavam distribuindo panfletos avisando as pessoas contra a possibilidade de atacar: "Não podemos trazer de volta o morto (Kadhafi), mas podemos enviá-los até ele".

O Movimento Popular Nacional Líbio (pró-Kadhafi) divulgou em diversos websites uma declaração afirmando que a situação na Líbia "estava se tornando pior a cada dia".

"Há pouco interesse por parte da mídia internacional em muitos dos horrores que existiram. Estamos nos reorganizando fora da Líbia para um movimento político inclusivo que englobe todos os líbios para o entender a terrível realidade do país", afirmava o anúncio.

Um ano depois do levante, a Líbia está enfrentando desafios para combater as milícias que lutaram contra Kadhafi para estabelecer um novo regime.

Milhares foram mortos ou feridos no conflito, a produção de petróleo, vital para o país, enfrentou dificuldades, além de casas, o comércio, fábricas, escolas e hospitais terem sido devastados.

Mas o problema mais imediato é como controlar dezenas de milhares de ex-rebeldes que agora se tornaram poderosas milícias, que, enciumados, prometeram manter sua honra e poder, e ocasionalmente explodem em confrontos mortais.

A Anistia Internacional, o Observatório dos Direitos Humanos e a Médicos Sem Fronteiras acusaram as milícias de torturarem seus prisioneiros, a maioria deles antigos defensores de Kadhafi.

O primeiro-ministro tem conhecimento de que integrar essas milícias ao serviço militar é uma questão "delicada". Mas seu governo disse na quinta-feira que aproximadamente 5 mil deles já estavam integrados.

O conselheiro do Banco Mundial, Hafed al-Ghwell, em uma declaração recente, afirmou haver certa preocupação em torno do governo do Conselho Nacional de Transição (CNT).

"O CNT teve que suprimir divergências internas, e há questionamentos e falta de credibilidade sobre sua efetividade", disse ele.