Reféns de apagões desde FHC

27/10/2012 18:38

“O bom atendimento é objetivo essencial do nosso governo”. Ao anunciar, cheia de orgulho, a redução das taxas de energia elétrica no Brasil, a presidente Dilma Rousseff (PT) não poderia imaginar que, cerca de um mês depois, amargaria mais um apagão de grandes proporções no País. Após o quarto blecaute do mês, as palavras de Dilma soam como trágica ironia. Caiu a energia e também a confiabilidade de um sistema energético que, desde 2001, funciona em meio a olhares atravessados.

 

Todo o Nordeste e parte do Norte ficaram no breu por quatro horas na madrugada de ontem, mas a dor de cabeça do brasileiro começou há 11 anos. Foi quando problemas de planejamento e investimento do então governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) fizeram surgir a necessidade urgente de cortar em 20% o consumo de eletricidade. Quem não se lembra do racionamento? A população foi obrigada a ficar no escuro em determinados períodos do dia; além disso, foi estimulada a economizar na conta de luz – tudo para evitar o esvaziamento total dos reservatórios.


O chamado “apagão” durou até meados de 2002 e, depois, virou alvo de críticas permanentes dos governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma, que agora enfrenta uma nova versão do problema. A escassez de energia já não ameaça como em 2001, mas incidentes no fornecimento do insumo não são mais uma raridade (ver infográfico na página 24). Os sucessivos “apagões” Brasil a fora, nos últimos meses, acabaram causando um prejuízo político à petista, justamente em um setor que lhe é caro, já que Dilma foi ministra de Minas e Energia de Lula e secretária da pasta no governo do Rio Grande do Sul.


Ontem, a oposição partiu para cima do Palácio do Planalto. Por meio de notas, DEM e PSDB culparam o governo pelos blecautes, atribuindo o problema à má gestão. Em outra frente de ataque, o PPS já se mobiliza para convocar uma audiência com autoridades da área.


Dilma ficou furiosa e cobrou explicações dos órgãos envolvidos. Até ontem à noite, não estava esclarecido porque ocorreu o curto-circuito na linha de transmissão em Colinas-Imperatriz – um ponto de distribuição de energia para vários Estados – e nem porque a energia só foi restabelecida quatro horas depois.


Não foi por falta de aviso que a situação chegou a este ponto. O Tribunal de Contas da União (TCU) tem feito vários alertas para a necessidade de mais investimentos em manutenção do sistema.


Em junho deste ano, o TCU cobrou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) sobre o cumprimento de determinações dirigidas ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), no sentido de evitar novos blecautes. Uma delas tratava da implantação de ferramentas de simulação para verificar riscos. Outra propunha a elaboração de estudos para restabelecer condições mínimas operativas em caso de colapsos.


Para o relator do processo na Corte, ministro Raimundo Carreiro, o problema não é falta de investimentos, mas cuidado técnico. “Isso afeta a credibilidade do País. O investidor não vai fazer distinção entre o que é uma simples queda no sistema e o que é falta de capacidade energética. Fora isso, quantos aparelhos queimaram? Quantos produtos armazenados não estragaram? Isso tudo cria uma crença der que o sistema não é confiável”, alertou Carreiro.


30% Dos afetados pelo apagão da madrugada permaneceram sem energia elétrica depois que o problema foi tecnicamente solucionado