'A arbitragem não protege os talentos no Brasil', afirma Lucas

'A arbitragem não protege os talentos no Brasil', afirma Lucas
Bruno Deiro - O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - Um mês depois de desabafar publicamente irritação com críticas a seu excesso de individualismo, Lucas está apanhando como nunca dos zagueiros. Para o garoto, não há sinal mais claro de que a boa fase voltou. Decisivo na série invicta de 12 jogos do São Paulo, ele garante que não se preocupa mais com desconfianças que, volta e meia, ainda pairam sobre seu futebol.

Aos 19 anos, o meia, até por seu estilo de jogo, já se acostumou às botinadas dos rivais. Em entrevista ao Estado, revela que apanhava até mais no tempo em que atuava nas categorias de base do São Paulo, mas sente que tem mais probabilidade de se machucar entre os profissionais. E, assim como Neymar, reclama que fica marcado por alguns árbitros por frequentemente acabar estatelado no gramado ao fim de cada jogada. "Alguns acham que estamos simulando ou nos jogando."

As críticas à falta de espírito coletivo, há um mês, mexeram com sua autoestima?
Procuro deixar os problemas fora de campo, levo como motivação, não posso deixar atrapalhar. Críticas vão haver sempre. Não busco provar nada para ninguém, mas para mim mesmo. Sei que tenho capacidade e tenho de provar a cada dia.

Sente que precisa brilhar a cada jogo para calar os críticos?
Às vezes você faz um jogo maravilhoso hoje, você vira craque e rei. Amanhã, quando não vai tão bem, já não serve mais, não é tudo aquilo e começam a duvidar do seu futebol. A gente sabe que o futebol é feito de resultados. Então, as críticas não me abalam e os elogios não me iludem mais. Procuro apenas fazer meu melhor todo dia.

No ano passado, você teve problemas para aceitar marcação mais forte. Já se acostumou?
Desde que comecei a jogar, por causa do meu estilo, apanho muito. Partia muito para cima, às vezes carregava demais a bola e acabava chamando a falta.

Nesta temporada, acha que está mais visado pelos rivais?
Às vezes era até pior nas categorias de base. O jogo lá era mais corrido e não tinha tanta disciplina tática. Além disso, não havia tanta câmera em campo, tinha menos gente olhando. Acabava apanhando mais. Mas, em contrapartida, no profissional a força é maior e a chance de acabar me machucando também é.

A arbitragem do País tem protegido atletas mais habilidosos?
É difícil, mas acho que a arbitragem não protege tanto a gente. Isto não é um apelo, mas tem de proteger quando houver falta, independentemente se for um jogador habilidoso ou um zagueiro mais forte. Tem de proteger a justiça dentro do campo. Às vezes eles esquecem que eu e o Neymar, por exemplo, vamos cair porque nosso porte físico é menor que dos zagueiros e volantes. Acham que estamos simulando ou nos jogando. Acho que falta um pouco essa consciência.

Teme ficar marcado?
Procuro sempre ficar de pé e seguir no lance para tentar finalizar ao gol. Acho que por isso não tenho fama de cai-cai. Procuro fazer bastante academia para segurar mais o tranco e ficar de pé nas jogadas.

Há mais violência na marcação quando está em boa fase?
Sim, quanto mais procurado dentro do campo é sinal de que se está fazendo um bom papel, pois querem te parar de qualquer maneira. Depende do meu crescimento. Quanto mais vou aparecendo e me destacando na carreira, mais fico marcado, Mas isto não me incomoda, vou continuar partindo para cima. Mostra que estou indo bem.

Além das entradas violentas, tentam intimidar de outro jeito?
Não aconteceu muito no profissional, de querer intimidar. Nas categorias de base acontecia mais, de dizerem que iriam me quebrar. O que rola hoje é uma brincadeira. Dizem: 'Vai correr para o outro lado' ou 'Vai devagar hoje, hein?' Até por eu ser amigo de alguns (zagueiros rivais) fora do campo.

No Santos, o Neymar tem resolvido alguns jogos. Sente que pode fazer o mesmo no São Paulo?
Com certeza, isso inspira a gente. Ver um amigo como o Neymar jogando assim me inspira para tentar jogar melhor. Ver jogadores como ele e o Messi fazendo grandes jogos me motiva a fazer melhor meu papel.

Os boatos sobre sua saída do São Paulo ainda te incomodam?
Isso é tudo especulação. Fico feliz quando vejo que há clubes de fora interessados no meu futebol. Mas, que eu saiba, não teve nada de oficial até hoje. Claro que penso em jogar na Europa algum dia, mas antes quero conquistar um título aqui, pelo São Paulo.

Qual sua meta para 2012?
A gente é movido a objetivos. Botei na cabeça que quero ganhar o meu primeiro título como profissional neste ano e fazer parte da Olimpíada. Com o tempo, me sinto mais maduro e experiente para buscar isso.