O desafio da gestão cultural

O desafio da gestão cultural

Hoje Paulo Linhares ocupa uma sala no prédio da Assembleia Legislativa, no Instituto de Estudo e Pesquisa para o Desenvolvimento do Estado do Ceará (Inesp). no entanto, está prestes a cruzar a rua e mudar de edifício. Enquanto isso não acontece, ele pensa em como melhor adaptar o projeto inicial do dito prédio (construído para receber o Procon da Assembleia e a Universidade do Parlamento) para um outro, de viés mais cultural. Prática, ele tem: foi o criador do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, no correr da década de 1990. Experiência ímpar, que ele relembra na entrevista a seguir.
 

O POVO - Quais foram as motivações para a criação de um centro cultural nos moldes do Dragão?

Paulo Linhares - Quando eu fui convidado (para ser secretário da Cultura) estava estudando cidade em Paris. Aí o Ciro (Gomes) ligou e me chamou. Eu estava fazendo minha tese que foi o livro Cidade Água e Sal, sobre Fortaleza. E eu estava viajando muito e estudando muito a cultura. Sempre achei que tinha um déficit de equipamentos no Centro de Fortaleza, que desse uma certa vida urbana, qualidade urbana. E hoje isso é muito claro. Estou falando isso porque nas primeiras entrevistas que eu dei eu falei que Fortaleza precisava de um centro de cultural e nos bairros, o que eu chamava Ágora – ateliês de gosto e razão estética, um pouco o modelo dos Cucas. Eu convenci o Ciro a fazer no Forte, na 10° região, mas os militares não aceitaram. Aí, eu comecei a pensar, e nessa época eu frequentava um bar que chamava Coração Materno, que depois eu descobri que era o lugar onde as jangadas do Dragão do Mar eram guardadas. A história do Dragão sempre esteve lincada a questão do Instituto Dragão do Mar, que veio antes. Eu sempre falava que os meus projetos de cultura tinham: formação, incentivo à criação e, por último, difusão. A ideia era que alguns casarões fossem naturalmente se transformando em áreas do Instituto Dragão do Mar.



OP - Você pensou um centro cultural que tinha atuação específica na região do Centro da cidade...

Paulo - Eu achava que o Centro tinha que ter uma vitalidade cultural que ele não tinha equipamento para ter.


 

OP - Como pensar a questão do entorno, o gargalo mais evidente do Centro Dragão do Mar atualmente?


Paulo - Primeiro, você teria que ter um projeto para a cidade, que leve em consideração essa cidade criativa de serviços culturais. Você não tem mais emprego industrial em Fortaleza. E você tem hoje uma parte grande da população que teria empregabilidade nessa atividade. Quando eu vejo hoje o impacto do Instituto Dragão do Mar sobre a vida de Fortaleza... Quase 7 mil pessoas alunos passaram por lá. Que hoje são fotógrafos, câmeras, cineastas, bailarinos. Foi uma revolução nessa cidade. E, de repente, parou tudo. Quer dizer, atividade de formação associada às atividades de criação, porque estava tudo associado. Que peças o Dragão criou? Que filmes o Dragão ajudou a produzir? Hoje em dia? Nos últimos dez anos? Ele perdeu essa criatividade quando ele perdeu o braço de formação. Como é que pode? O equipamento passa a receber restos de exposições do Sudeste? E nem isso está fazendo...


OP - O Dragão do Mar nasce como ideia no governo Ciro mas é inaugurado no retorno do Tasso Jereissati ao Estado. Você acompanha essa transição....


Paulo - O Tasso achou que estava funcionando. E realmente ia dando muito bem. Mas a única coisa que ele não digeria era o Dragão. “Eu acho aquele negócio muito grande...”, dizia. O Tasso sempre teve uma preocupação com a obra, o tamanho de obra, e eram 30 mil metros quadrados, apesar de ser baratíssimo. Ele custou na época 20 e poucos milhões. Só na reforma desse Castelão, hoje, são 500 e tantos milhões.

 

OP - E você chegou a conviver com o Centro construído?

Paulo - Meu nome não estava nem na placa, nem o do Ciro, depois que botaram. A proposta do Dragão foi muito ligada primeiro para ser a porta de entrada para o que vem da Europa, e, não, dos restos que vem do Sudeste. Não falo hoje, de gestão de agora, não quero dar palpite, não tenho mais paciência. E pode ser que eu seja um pai exigente. Mas eu não vi nunca o Dragão atingir isso nem na primeira fase. O meu sucessor (Nilton Almeida) que eu tinha colocado na Secretaria acabou rompendo comigo e teve uma crise que toda a equipe do Instituto Dragão do Mar foi demitida num dia só... O Silas (de Paula) ainda segurou as pontas. Mas existia uma má vontade com o Instituto que depois se materializou com a extinção na gestão da Cláudia (Leitão).


 

OP - Eu queria voltar para o começo da nossa conversa: como se mostrava que um equipamento grandioso era viável?


Paulo - Não acho que seja grandioso. É um equipamento muito simples. Eu tinha estudado a experiência do Pelourinho. Eles gastaram em alguns projetos meio bilhão de dólares. Mas tinha um erro porque não tinha uma âncora, capaz de dar sustentabilidade. E eu sempre pensei que o Dragão podia ser uma boa âncora, ligada a capacitação, fluxo de gente. É um equipamento de funcionalidade extremamente barata, o que tem custo alto ali? Praticamente nada. Você tem o cinema que no projeto era autossustentável, você tem um teatro que praticamente se paga, você só vai ter de custo ali dos museus.

 

OP - E você pensou em formas de viabilizar o centro cultural para além das gestões, evitando a oscilação entre gestões?

Paulo - Uma das coisas que pensei é que ele devia ter custo baixo, de construção, como teve, e de manutenção, que ele tem. Nunca tive ilusões que um equipamento desse era para ser autossustentável. Isso é papo furado. Não é em lugar nenhum do mundo. Isso é política pública, do Estado.


 

OP - E como garantir isso? O Dragão está sendo encarado assim?


Paulo - Você tem hoje um consenso que o Dragão pode vir a se tornar um equipamento importante. Na concepção dele, uma das coisas que seria chave para se pensar eram as possibilidades criativas do Dragão. Ele é uma OS (organização social) e foi concebido para ter uma participação grande da sociedade civil, mas essa OS nunca funcionou com essa participação. Porque ela é muito contaminada pelo poder do Governo do Estado.

 

OP - Onde você identifica o erro dentro da gestão do Dragão? Que faz com que ele esteja na situação que está agora?

Paulo - Primeiro, eu acho que há um problema, que na época que eu não percebi, que o Dragão tem uma vitalidade simbólica tão grande e prática que ele se tornou num incômodo entre o secretário e o presidente. Todo secretário da Cultura acaba brigando com o presidente do Dragão do Mar. O presidente do Dragão acaba se tornando mais importante que o secretário. É tão complicada essa relação que eu acho que o Dragão deveria se autonomizar com relação à Secretaria. Acabar com esse drama. Esse conflito eu não consigo ver como resolver. Você pega no caso da Cláudia, com o Augusto César (Costa), a Maninha (Morais) com o Auto (Filho). É um dilema. Eu acho que poderia ser independente, ou ligado ao governo, ao gabinete do Governador, para evitar que tenha esse conflito.


 

OP - Você nunca teve vontade, Paulo, de ser presidente do Dragão do Mar, já que secretário da Cultura você foi?


Paulo - Olha... Para te falar sinceramente, eu não tenho mais aptidão para enfrentar o dia a dia. Eu queria ajudar a fazer uma coisa bem feita. Que principalmente tivesse formação de criação.

 

OP - É fácil percebe que a presidência atual do Dragão não pensa projeto para além do orçamento.

Paulo - Eu queria falar aqui sem atingir as pessoas, mas é óbvio que o perfil do gestor do Dragão tem que ser uma pessoa que tenha certo trâmite internacional, que saiba o que está acontecendo no mundo, que viaje, que tenha uma boa relação nacional. E ter essa capacidade de entender a cultura do Ceará, com a sua diversidades, e trazer para o Dragão um pouco da questão do interior. O que acontece é uma desarticulação de pensamento, que não é culpa da atual gestão. Mas falta um pouco de sofisticação. Falta certa sofisticação de percepção de política e percepção de gestão. É complicado mesmo. Eu não gosto nem de ficar botando a culpa nas pessoas. Acho que é um déficit de consciência social, que nós temos, todos nós. A gente acha bonito quando é lá fora, mas quando chega aqui... Será que a gente tá priorizando o que é importante?


 

OP - Isso meio que acontece no País todo, principalmente a partir do Ministério da Cultura...


Paulo - Mas se você pega o Rio, por exemplo, não é nem que os caras percebam o ponto de vista mais sofisticado de cultura. Eles percebem economicamente o campo da cultura. Você pega um Eduardo Paz, o cara tem noção de que a saída do Rio de Janeiro é ser a capital cultural do país contra São Paulo. Aqui não tem. Os caras estão com a cabeça industrial. Eu digo isso há mais de 20 anos. É industrial ou comercial não simbólica. A compreensão de que se não tiver indústria criativa essas outras áreas não vão se desenvolver não é consenso. Então, não entendem o Dragão, não entendem a função da cultura. O que representa a cultura numa cidade como Fortaleza? Quais são os empregos que você vê sendo criados? São maioria na área de cultura.

 

OP - Mas só se faz esse tipo de fomento de forma...

Paulo - Marginal! Os caras, de maneira geral, Prefeitura, Governo do Estado, acham normal gastar 10 milhões numa capa de asfalto que vai de lugar nenhum para lugar nenhum. Falar em colocar 10 milhões no Dragão é um absurdo.


 

OP - A ideia é que o turismo vai fomentar a cultura.


Paulo - Eu não colocaria o turismo em relação nenhuma com a cultura. A cultura não deve se preocupar com o turismo. A relação com da cultura com o turismo é a seguinte: o turismo se quiser que vá atrás da cultura. É igual marketing cultural: a partir da minha criação você faz marketing cultural. Mesma coisa com a cultura e o turismo. Quando tem cultura boa, o turismo sai correndo atrás, e quando tem cultura ruim é que fica essa conversa. O turista vai atrás do que tem força culturalmente. O problema atravessa perfis de governo, atravessa partidos políticos porque é uma incompreensão do que é uma cidade como Fortaleza.